Sou seu vício, sua cachaça, embriago-te com meu ser,
transformo-te em outra pessoa. Irreconhecível para si mesma, atende meu chamado
como quem busca saciar sua abstinência, bebe de minha boca, cheira meu aroma,
come a minha carne e deleita-se sobre meu sexo.
Suga minha virilidade como a abelha e o mel, arrepia-se
apenas por lembrar, fica ouriçada pensando em meus dentes em seus lábios, minha
mão em suas carnes e minha língua áspera a roçar-lhe.
Deita-se comigo em sua mente, toca-se, geme baixinho com
medo de ser ouvida, banhos longos, frequentes e quentes. Como a a heroína que
faz coçar, faço-lhe tocar, vontade de gritar constante, impacientemente
aguardando-me.
Fica irritadiça, a distância lhe frustra, se eu sumo me
cobra, se eu apareço reclama que só pioro sua condição clínica, precisa de mim,
em carne, osso e fogo! Não de meu afago, não de meu abraço, mas de meu corpo
inteiro, dentro de si.
A um tempo atrás escrevi uma postagem com o mesmo nome, pensava ter encerrado uma fase em minha vida, doce ilusão, agora sinto que encerrei-a, nova mentira, bem sei, sei que é apenas mais um passo dado a algum lugar desconhecido, mas muito dolorido.
Nunca entendi a necessidade das pessoas diminuírem aquelas que fizeram parte de seu passado, reduzindo sua importância e aumentando a própria, parece-me uma questão de ego ferido, de necessidade de reafirmar-se através da critica a algo que pode ter sido bom, que pode ter sido belo.
Não digo que foi meu caso, quem sou eu para julgar a mim mesmo, sou apenas uma parte do processo, sem provas, sem testemunhas, apenas com minha declaração de inocência. Nunca fiz questão de provar, me orgulhava disso, imaginava que a certeza intima era suficiente, assim como nunca tive nenhuma preocupação com as testemunhas, cometi o crime de ser uma pessoa adaptável, sendo vários eus, um para cada situação e fazendo as pessoas acharem que cada um desses eus era o meu verdadeiro EU, me julgando erroneamente, mas eu não tinha com o que me preocupar se quem me importava conhecia o EU que eu fazia questão de ser ao seu lado, e um EU que buscava melhorar em todos os eus de que o meu EU era composto.
Hoje sou forçado a ouvir o relato de testemunhos que eu não esperava, sou lembrado das provas que não dei, começo até mesmo questionar a mim mesmo, será que eu me iludi, vivi num mundinho tão meu, egoísta e egocêntrico, que tudo que vivi bastou apenas para mim?
Não importa, a cada minuto eu tento me convencer disso, sou julgado desta forma por tentar evitar que fossem julgados em meu lugar, na vontade de proteger, me desprotegi, na esperança de ser forte o suficiente para suportar o fardo sozinho, errei de novo. Não fui capaz de proteger e não permitindo que se protegessem acabei me desprotegendo, perdemos todos. Saímos todos machucados.
Mas volto a questão inicial, o que faz as pessoas ignorarem tudo de bom q viveram? O que faz as memórias ruins sobressaírem? A quantidade? A intensidade? Ou simplesmente a incapacidade da pessoa de seguir seu caminho com boas memórias, a incapacidade de dar continuidade sem conseguir cortar este vínculo trazido por este sentimento saudosista? Sinceramente eu não faço ideia, é diferente para mim.
Hoje me lembro do carinho, jamais me esqueci ou me esquecerei, me lembro do cuidado, do remédio de gosto ruim numa manhã de indisposição, de usar esponja vegetal até na sola do pé, de comer sushi na cama com musica zen, velas e vinho, de lembrar de cada da importante, da primeira a ultima, e comemora-las a cada ano, de comprar coisas legais sem razão alguma, simplesmente pelo prazer de ver o sorriso do outro, de guardar aquele lanche favorito em casa até que não dê mais para guardar, ou simplesmente até que o cachorro ataque, de comprar o doce favorito no baleiro do busão, pois será inesperado chegar do trabalho com aquilo no bolso, de manter-se com a roupa do trabalho, odiada, por mais tempo só porque o outro acha que você fica bonito, de jurar que jamais compraria flores só para surpreender com o buquê que alguém ensinou que seria o mais bonito, me lembro de repreender xiliques em supermercados e de aprender a fazê-los e notar que as vezes é útil, principalmente na fila do restaurante, me lembrarei sempre das primeiras vezes, de ambos, cada uma das primeiras vezes, o primeiro sorvete, a primeira rosa, ainda que de papel, o primeiro beijo, que deveria ser cheiro, de aprender uma forma nova de comer chocolate, de ensinar a comer peixe cru, são tantas coisas que a lista dificilmente poderia ser lida, mas lembrarei também de muita coisa ruim, não porque me machucam, mas porque me ensinaram, lembro com verdadeiro prazer de algumas brigas, porque frutificaram, porque resultaram em melhora, lembro de ensinar que pedir desculpas muitas vezes não é sinal de que se erra muito, é sinal de que se assume o erro muitas vezes e de que se está disposto a mudar, aprendi a pensar mais desta forma também, aprendi a pedir desculpas...
No fim, o meu passado será sempre referência para meu futuro, experiência e também uma porta, aberta ou fechada, isso não importa, portas se abrem e se fecham, esta é sua função, não são portas fechadas que impedem minha passagem, para cada uma existe uma chave que será encontrada no tempo certo. Meu passado foi feliz, até porque felicidade não é uma questão de ser e sim de estar e como eu estive feliz por mais tempo do que estive triste, por muito tempo eu fui feliz! E continuarei sendo, pois o mundo gira e a vida segue e afinal, é só o fim!
Sempre fora livre, sempre viajando, se ferindo, se arriscando, amando,
sofrendo, matando, mas um dia foi surpreendido, voltou para os braços de um dos
seus maiores amores e não a encontrou, encontrou apenas sua herança, não a
conhecia, aquela coisa pequena e suja, ranhenta e magrela, seus braços mais
pareciam dedos, de tão finos, perguntou-se como aquilo teria vingado,
perguntou-a sobre a sua mãe e soube que morrera, preferiu não perguntar de que,
sentiu vontade de chorar, amara aquela mulher, mas seu contato fora breve, mas
não podia se permitir demonstrar tamanha fraqueza para aquela pequena.
Tinha visto força nela, o que o assustou. Por debaixo
daqueles cachos negros estavam um olhar penetrante, forte, de quem sabe o que
quer e que foi bem ensinada, apesar da pouca idade. Ficou encantado, seu
espirito era guerreiro, disputava o que queria com fervor e quando perdia não
mostrava lagrimas e sim os dentes, com ferocidade.
Pousou por alguns dias naquele lugar, alimentou-se com a
comida daquelas pessoas que criavam a filha daquela que cativou eternamente seu
coração, deitou-se com algumas mulheres que ali viviam, mas não encontrou em
nenhum braço aquela energia, ficou triste, ajudou no que pôde, como forma de
pagar sua estada, se afeiçoou aquela menina, tão pequena e já dominava as
ervas, sabia usar um athame como um garoto brinca com sua espada, era mirrada,
mas seria forte, uma mulher de fibra, um dia, quando crescesse, se crescesse.
Ela o fazia lembrar demais a mãe da criança, tanto que doía,
seus cabelos negros e pele alva eram iguais ao que um dia ele acariciou, olhar
para aquela menina incomodava e trazia belas lembranças, apesar do espirito
desta criança ser completamente diferente, muito mais arredia e teimosa, não
conseguia imaginar como a sua mãe conseguiu ensinar tanto a alguém tão turrona.
Um dia a estadia chegou ao fim, as feridas cicatrizaram, o
tempo melhorou, apesar do prazer da companhia era chegada a hora de partir, ao
anunciar sua partida recebeu uma notícia que mexeu com sua cabeça, a avó da
criança lhe chamou e contou-lhe que aquela criança era fruto da sua união com
sua filha, que aquela coisa pálida e mirrada era fruto da sua carne, do seu
sangue e do seu amor por aquela morena esguia, ficou tonto, mas entendeu a
empatia que sentiu por aquela menina morena, como sua mãe, como seu amor.
Avisou-lhe também que não haveria quem cuidasse da sua
criança por muito tempo, pois já era idosa e não haveria outras pessoas e quem
confiar sua seurança, deixando clara, assim, sua intenção, ele aceitou o fardo,
sabia o que fazer, levaria para um lugar onde ela seria ensinada a ser uma
mulher e uma guerreira, como seu espirito gritava que queria, ao afirmar que
levaria a criança, surgiu dum canto qualquer, num pulo, aquela coisa branca
voando em sua direção, abraçando-o, chorando, dizendo que sua mãe já havia lhe
falado sobre ele e que o reconheceu assim que o viu.
Contudo uma coisa o preocupava, não seria uma viagem curta,
não seria uma viagem tranquila, muito menos segura, para chegar onde queria,
teriam que ser como a sombra, mas alguém tão grande como ele e uma criança
estabanada como ela, dificilmente passariam despercebidos.
Meses se passaram até alcançarem o objetivo, neste período
se tornaram ainda mais unidos, ensinou-lhe a manusear o athame, a se defender
em caso de necessidade, e o conhecimento dela sobre ervas acabou o salvando um
dia, quando um corte de espada foi mais fundo do que era possível suportar, foi
ela quem tratou sua ferida e sua febre. Fazendo-o lembrar e sentir falta, mais
uma vez, do calor da pele de sua mãe.
Quando não estava concentrada em suas praticas ou buscando
ervas para alimentar-se, ela ria, e como ria, um sorriso grande, com dentes
alvos e som engraçado, era bom se apaixonar por aquela criança, sentir o amor
que as pessoas sempre falavam, morreria por ela, mesmo a morte certa, seria
enfrentada para que aquela criança pudesse sorrir muitas vezes mais.
Muita gente tem me perguntado se os contos que tenho escrito, ou quase contos, por faltar características que seriam essenciais aos contos, são de minha autoria. Bem... Estes contos são baseados em feelings, insights que tenho. São descrições da forma como eu vejo a origem de certas relações cármicas que tenho hoje.
Dentre os contos já escritos, pode-se dizer que retratam a minha relação com 2 ou 3 pessoas cada conto, sendo uma principal, que dá a cara aos personagens, que define qual será a relação entre eles e outras relações secundárias que caracterizarão o personagem, um traço de personalidade, uma característica, pode ter vindo de qualquer um. Haverão também contos que trarão a relação com quem nem conheci ainda, muito mais sentidos e menos racionalizados que outros que já apareceram.
Antes que me questionem o por quê deste título, digo que são quase psicografados porque a origem dos meus insights vêm da minha religião, do que eu acredito ser meu Guia, que seria um espirito que me acompanha e acaba por interferir em minhas relações e sensações, estes contos são sobre mim e sobre ele, sobre a história dele e sobre como ela me influencia. Não entro num transe para escrever, ao contrário, a ideia vem, e começo uma espécie de negociação poética, onde vou tentando descrever de forma que me pareça bonita e forte aquilo que está sendo mostrado para mim, a explicação que me é passada é traduzida por mim e poetizada por mim, ou seria ainda mais crua.
O quase cavalo é mais uma piada sobre como se dá a minha relação com meu Guia, fazendo uma referência ao Candomblé, que tem um processo de passagem semelhante ao nosso e que nomeia aqueles que o fazem de "cavalos", e por isso me permito usar o termo "quase" para deixar clara a diferença.
Desta forma, agradeço a meu Guia, um guardião, um Kah'moh-hey, por me permitir entender-me melhor através do entendimento da sua influência em minha vida, dando-lhe também os créditos por cada conto escrito neste blog!
Ambos acreditavam serem invencíveis, inúmeras batalhas
vencidas, muitas lado a lado, irmãos de armas sabiam suas forças e acreditavam
que não havia fraquezas.
O machado de guerra era considerado invencível, seu portador
só poderia ser derrubado por flechas, mas não este, imenso, assustadoramente
forte, não seria apenas uma flecha que o derrubaria, ele ainda dividiria muitos
oponentes em dois antes de tombar.
De outro lado havia as duas espadas, a habilidade requerida
para o manuseio de duas armas, menores que as comuns, era imensa. A quantidade
de cicatrizes demonstrava o quanto era arriscado chegar tão perto do inimigo,
mas lhe dava experiência, sabia que viver ou morrer estava determinado por sua
habilidade, por sua sagacidade e tenacidade, não pelo comprimento de sua arma.
Também era imenso, com barba e cabelos fartos, escondendo algumas cicatrizes no
seu rosto, suportaria muitos ferimentos antes de cair, mas sabia, ninguém era
capaz de suportar a uma machadada, ser acertado por um machado tinha apenas
dois resultados, ser dividido em duas partes e morrer imediatamente ou dar o
azar de que a lâmina apenas passe em seu ventre, lhe esviscerando e morrendo
lentamente, agonizando.
Estes dois colossos estavam em lados opostos agora, suas
mulheres estavam apreensivas, algumas já choravam, pois sabiam que apenas um
dos dois sobreviveria, aquelas que eles compartilharam não sabiam sequer o que
esperar, para que rezar, senão para que ambos desistissem deste combate suicida.
A força do machado contra a velocidade das espadas, o machado parecia
lento, mas isto era compensado por seu alcance, as espadas rápidas, mas
precisavam alcançar o oponente, ambos hesitaram por um instante e no momento
seguinte aquele encontro teve seu desfecho, o machado girou, as espadas
estocaram, o sangue jorrou e alimentou o solo, a lâmina ensanguentada do
vencedor pingava, bem como lágrimas dos olhos deste. A dor estampada nos olhos
do derrotado fazia sofrer a todos e assim descobriram que mesmos colossos caem.